terça-feira, 6 de novembro de 2007

Ela aprendeu a correr

Ela aprendeu a correr

Leiliane era completamente diferente dos seus pais e de suas irmãs. Mais tímida, mais quieta, mais orgulhosa, muito bondosa, vivia em abrir mão de suas coisas para ajudar outras pessoas. Sempre gostou de estudar, tinha um sonho de terminar a faculdade e casar. Vivia em pró disso, e de mais nada.
Mas tinha algo dentro dela que não deixava viver em plenitude tudo o que uma menina de 20 anos poderia viver. Isso era realmente um mistério que sua timidez e discrição não permitiam que ninguém soubesse. Por ora, seu orgulho, muitas vezes, camuflava o sofrimento que ela trazia dentro de si para não demonstrar inferioridade.
Um certo dia ela se olhou no espelho e viu que não era tudo o que fantasiava ser. Ficou triste, se fechou mais ainda para o mundo que a cercava. Ela não tinha o emprego que queria ter, já estava terminando a faculdade e não tinha perspectiva de uma carreira brilhante, estava cansada de algumas brigas familiares. Achou que sua vida não valia mais a pena. Chorou. E desejou a morte.
Passou a viver os dias “empurrando com a barriga”. O que era pra acontecer, iria acontecer, pensava ela. Teve mais um dia igual a todos os outros. Acordou cedo, foi trabalhar, saiu do trabalho foi pra faculdade e da faculdade quis fazer um caminho diferente: ir visitar sua irmã.
Pegou um ônibus até o metrô Vila Matilde e de lá pegou uma perua até a Av. São Miguel. Quando acordou estava sendo socorrida. O que havia acontecido ela não sabia, acordou um pouco tonta ouvindo o celular tocar e quando abriu os olhos estava cercada de pessoas e sendo imobilizada para entrar na ambulância.
Atropelamento é um fato normal em uma cidade como São Paulo, são em média 594 mortes por atropelamento na cidade, mas nunca pensamos que podemos ser a próxima vítima. Se ela soubesse teria tomado mais cuidado.
No começo, ela não sabia o que tinha acontecido fora atropelada por um caminhão e arrastada por uns 50 metros. Não se lembrava de nada, e ainda não se lembra. Foi como se ela estivesse dormindo enquanto tudo isso acontecia. Mas estava em seu juízo perfeito, preocupada com tudo que estava acontecendo em sua vida, como arrumar um estágio e fazer as provas finais da faculdade.
Sedada e muito debilitada não entendia a seriedade que fora o acidente. Quando olhou para cima e viu sua imagem refletida no vidro do hospital tomou um susto, pois estava completamente deformada, seu rosto inchado e em carne viva. Pensou que seu pedido de morte fora atendido por Deus, pois imaginou que sua vida estaria acabada com tantas marcas e deformações que tinha.
Mas ela não sabia que sua sorte estava sendo mudada depois desse acontecimento. A cada dia que passou as feridas foram secando e desaparecendo. Quem a viu no hospital não imagina vê-la que sararia tão rápido. Foi realmente um milagre.
Recebeu alta médica depois de oito dias, sua recuperação em casa também foi sobrenatural. As seqüelas sumiram, restando apenas algumas marcas que, com certeza, sumirão com o tempo.
Mas além do físico sua alma também estava sendo tratada. Voltou querendo viver. Aquele sentimento de derrota, de invalidez, de arrogância, sumiu. Foi como se um dos vários remédios que teve que tomar, tivesse tirado toda a tristeza que insistia aparecer em seu olhar. Voltou com força total.
Hoje Leiliane enxerga o sentido de viver, aprendeu a correr atrás do que quer. Busca uma vida abundante e cheia de felicidade. E o mais importante, não tem medo de mostrar o que sente nem de parecer inferior. Todos dizem que ela ficou mais bonita e muito mais simpática e está prestes a iniciar no emprego dos seus sonhos. É como diz o ditado “há males que vem para o bem”.

Faz dois anos que isso aconteceu. Escrevi essa crônica para um trabalho dafaculdade. Acho que foi a melhor das crônicas que já escrevi. Deus é fielcomigo. Obrigada, Senhor.

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